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O caso Pokemon chega a Lousame

O levantamento do secreto de sumário de uma parte do sumário da Operação Pokemon desvelou a menção que nele se faz do ex-alcaide de Lousame e atual deputado autonómico Santiago Freire, ao qual, segundo indica El País, teria dirigido o presidente da Deputação da Corunha Diego Calvo ao já imputado Henry Laíño (ex-director de Aquagest) em relação a uma importante concessão, apontando a Freire como deputado que “levaria estes temas”, ao qual Henry Laíño responde que conhece o pai do então alcaide de Lousame. Não é a primeira vez que Santiago Freire aparece num sumário deste tipo, pois na Operação Orquestra, relativa à trama de contratas da construtora Ogando, Lousame figura como um dos municípios que trabalharam com a empresa, concedendo-lhe o asfaltado interior da Escábia e Vilar de Reconco e Santiago Freire é, junto com o alcaide de Fisterra (imputado na trama Orquestra), um dos convidados por Ogando à ceia celebrada em dezembro de 2010 em Sardinheiro (Fisterra) e investigada no contexto dessa operação, como também informaram vários meios. Isto sai à luz justo na mesma semana que a atual alcaidessa Teresa Villaverde foi criticada publicamente por adjudicar a Nemesio Ordoñez, S.A. as obras Confurco-Cês através do procedimento de negociação sem publicidade.

As operações policiais “Pokemon” e “Orquestra” evidenciam o modus operandi caciquil que, hoje como antes, caraterizam o poder hierarquizante do Estado. Ainda que em ambas operações as empresas investigadas e seus responsáveis aparecem como instigadores e aparentemente protagonistas em solitário da suposta corrupção, esta narração é totalmente infantilizante: sem a colaboração necessária e igual interesse dos cargos eleitos das administrações públicas envolvidas, os casos de aparente tráfico de influências que se estão a conhecer não estariam a ser investigados.

Do que se desprende dos sumários, existem basicamente duas formas de fazer no tráfico de influências, ambos baseados no modelo Gurtel. Por um lado, aqueles que se referem a diversos alcaides do Partido Popular e ao presidente da Deputação da Corunha Diego Calvo consistem em “pedir-lhe” a uma empresa privada que contrate a uma pessoa. O candidato contratado passaria a dever-lhe o favor ao político que o promoveu, inclusive vendo que a sua própria continuidade dependeria da continuidade do político da mão de quem foi contratado. Uma prática caciquil de manual. Polo lado da empresa, o “prémio” por contratar os candidatos sugeridos polos cargos políticos eleitos consistiria na obtenção de contratos e concessões públicas. Deste jeito, graças a contratar trabalhadores sem ter em conta o mérito e idoneidade do candidato, as administrações públicas envolvidas na trama contratariam a empresas ainda que a sua oferta e méritos não fossem os melhores, em detrimento de outras empresas concorrentes. Uma versão ainda mais repulsiva de caciquismo é aquela consistente em que o cargo político solicite da empresa que demita a um trabalhador por motivos políticos (e de passagem deixar uma vaga para alguém afim e dependente).

A segunda forma de fazer, mais insultante ainda, consistiria em dar contratos de obra pública a empresas concretas que, por sua vez, abertamente ou de maneira dissimulada acabariam revertendo uma parte do avultado benefício do contrato em cousas como as doações aos partidos políticos locais, a “festas” de interesse para esses partidos, ou diretamente aos petos dos responsáveis políticos que lhes “deram” o contrato. Com frequência as prestações e contraprestações supõem uma combinação destas práticas.

Além de exigir a investigação realista destes aparentes delitos para que, em caso de se virem a confirmar os delitos que se evidenciam nestes sumários e noutros casos semelhantes, cumpre reclamar que a investigação não se limite só aos responsáveis das empresas privadas. A manipulação da opinião pública neste aspecto é clara, chegando em alguns mídia a pretender-se que os responsáveis públicos são “vítimas”, em vez de verdadeiros instigadores. Este é também o caso do desfalco de Lousame de um quarto de milhão de euros, onde o ex-tesoureiro é apresentado como único responsável quando o alcaide, governo municipal e a secretaria-interventora são, polo menos, igualmente responsáveis por omissão na hora de saber o que estava acontecendo. Se a longa e sólida série de provas que se estão a conhecer da mão de casos como o Pokemon servem para confirmar os delitos em causa, resultaria chamativo que do lado das administrações públicas os condenados fossem só cargos públicos eleitos e não também funcionários e funcionárias públicas, dada a sua participação necessária nos processos de contratação, concessão e avaliação públicas. O inverso também é certo, como poderia evidenciar o desfalco de Lousame.

Igualmente, as declarações do presidente da Junta referindo estas pretensas práticas delitivas de tráfico de influências como compreensíveis e não condenáveis se referidas a empresas privadas, são um insulto à inteligência. As empresas envolvidas não são ONGs: se participavam nas cacicadas seria porque recebiam depois os cartos públicos via contratos (em detrimento da eficiência do gasto público e da concorrência). Numa das gravações que agora se fez pública, o ex director de Aquagest tem de lhe explicar à sua própria mãe que não pode meter a outra pessoa mais do que aos enchufados polos políticos que lhe dão contratos públicos, já que não tem mais vagas. Portanto, ainda que não se trate duma oposição, a prática é totalmente condenável, também judicialmente.

Por último, tendo em conta que os sumários afetam a toda a classe política que tocou poder – PP, PSOE e BNG (antes de que desse partido se cindiram CxG e Anova) – aparentemente inclusive de jeito proporcional ao seu respectivo poder político, não adianta acusar umas siglas para desculpar outras. O problema é a forma de fazer política e a falta de democracia. Entender a política como uma atividade profissional na que só umas minorias devem participar na gestão da sociedade de interesses, em vez de como uma responsabilidade universal que corresponde a cada pessoa adulta da comunidade, acarreta que as administrações públicas funcionem como empresas e seus dirigentes como gestores com ânimo de lucro, perpetuação e corruptibilidade equivalente à de qualquer empresa privada. A solução é a participação política de todas e todos, e não mudar uns messias “maus” por outros “bons”.

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